Eu e a prima Mercês, filha de Antônio Piancó de Lima (Tito, meu tio avô)
Jacareí, 20 de agosto de 2010
Em agosto do ano passado eu estive em Jacareí, fui visitar os filhos do meu tio avô Antônio Piancó de Lima. Mercês, uma das sua filhas, resgatou essas histórias dos tempos do meu bisavô. Hoje, revendo esse vídeo eu me dei conta da importância da sua narração. Ela cita pessoas queridas de tempos passados e mostra objetos que a elas pertenciam, os quais guarda até hoje.
Na simplicidade da sua fala eu descobri o quanto ela guardou de saudade dos velhos tempos da Maniçobas, a terra onde estão plantadas as nossas origens.
Ela mergulha no tempo e volta ao ano de 1906, ano em que o seu avô Serafim Piancó (meu bisavô), tinha uma lojinha de miudezas. Mostra uma reminiscência que ganhou de Zefa (irmã de seu pai, porquanto minha tia avó) um lenço de algibeira que meu bisavô havia dado de presente ao meu avô João Inácio de Lima.
Mercês diz que eram quatro lenços: o do meu avô, que estava ali com ela, e outros três que pertenceram a Antônio, Miguel e Raimundo Piancó. O lenço do pai dela, Zefa teria dado a Neves e os outros ela doou a Lourdes, Neves e Judith, suas irmãs.
Em seguida ela exibe com orgulho estojo de aplicar injeção que pertenceu ao seu velho pai. Fala sobre o tempo em que o único farmaceutico da Vila de Umburanas (hoje Cidade de Itapetim), era o nosso inesquecível amigo Miguel Alves da Costa, conhecido como "Miguel Maginário", uma referência ao seu pai Francisco Imaginário que, além de farmacêutico, era um artista que esculpia sacro imagens na madeira. Ela narra com detalhes como aprendeu a aplicar injeção, resgata a figura amada da nossa tia afim, Francisca de Miguel Piancó (Teto), a qual era parteira e também aprendeu com seu pai a aplicar injeções nas suas parturientes.
Mercês também, na sua narrativa, nos fala do poeta Vital Leite, um parente nosso que se imortalizou pelos belos poemas que deixou para a posteridade. Vital, nasceu no Sítio Bonita, no município de Itapetim, em 23 de março de 1918. Era agricultor, exerceu também a profissaõ de barbeiro, pai dos poetas, João, Zezito, ambos falecidos, e de Adalberto e Jacinto os quais ainda hoje compõem belos poemas.
Faleceu no dia 07 de agosto de 1963, há exatos 48 anos desse dia memorável em que me encontrei com Mercês em Jacareí. E é com um dos seus mais belos poemas do saudoso Vital, escrito no leito de morte, que encerro esta postagem, agradecendo a minha prima Mercês por essa riqueza de documentário sobre histórias da nossa família em tempos tão remotos:
Ponto Final
"Estou um vivo semi-morto
No leito da desventura
Meu remédio é amargura
E a tristeza é meu conforto
Remando a barca pro porto
Da esperança perdida
E a matéria convencida
Desiludida da sorte
Parta a corrente da vida
De viver tenho vontade
Me esforço, luto e pelejo
Mas. olho atrás e não vejo
Meus dias da mocidade
Já descambei da metade
Estou chegando ao fim
Tudo pra mim é ruim
Todo cansaço me afronta
Brevemente tiro a conta
Dos dias quae tacaram a mim
Na barca dos desnganos
A fraqueza e a idade
Navego sacrificado
Faz-me adoecer sonhando
Vendo o cabelo pintado
Vendo a velhice chorando
Com a tinta branca dos anos
Com pena da mocidade
Grandes martírios tiranos
E a mão da finalidade
Na vida tenho vencido
Na consciência me diz
Hoje me esforço, é perdido
Não posso mais com a cruz
Estou só completando
Os dias que Deus for servido
A sorte é como um Juiz
Processa e dá sentença
E a cadeia é a doença
Pra quem nasceu infeliz
Me faço de conformado
Sorrindo sem estar contente
Pensando só no presente
Pra ver se esqueço o passado
Mas vivo sempre lembrando
Dos dias da meninice
Um velho ancião me disse
Me esclarecendo a verdade
Que as flores da mocidade
São espinhos na velhice
Quando deixarem Goiás
Pra Pernambuco voltarem
Pode até só encontrarem
Na cova os restos mortais
Com letras iniciais
Com lembrança inesquecida
Vá no pé da cruz erguida
Curvados rezem também
Um pai nosso pra quem
Deixou de sofrer na vida ..."
"Estou um vivo semi-morto
No leito da desventura
Meu remédio é amargura
E a tristeza é meu conforto
Remando a barca pro porto
Da esperança perdida
E a matéria convencida
Desiludida da sorte
Parta a corrente da vida
De viver tenho vontade
Me esforço, luto e pelejo
Mas. olho atrás e não vejo
Meus dias da mocidade
Já descambei da metade
Estou chegando ao fim
Tudo pra mim é ruim
Todo cansaço me afronta
Brevemente tiro a conta
Dos dias quae tacaram a mim
Na barca dos desnganos
A fraqueza e a idade
Navego sacrificado
Faz-me adoecer sonhando
Vendo o cabelo pintado
Vendo a velhice chorando
Com a tinta branca dos anos
Com pena da mocidade
Grandes martírios tiranos
E a mão da finalidade
Na vida tenho vencido
Na consciência me diz
Hoje me esforço, é perdido
Não posso mais com a cruz
Estou só completando
Os dias que Deus for servido
A sorte é como um Juiz
Processa e dá sentença
E a cadeia é a doença
Pra quem nasceu infeliz
Me faço de conformado
Sorrindo sem estar contente
Pensando só no presente
Pra ver se esqueço o passado
Mas vivo sempre lembrando
Dos dias da meninice
Um velho ancião me disse
Me esclarecendo a verdade
Que as flores da mocidade
São espinhos na velhice
Quando deixarem Goiás
Pra Pernambuco voltarem
Pode até só encontrarem
Na cova os restos mortais
Com letras iniciais
Com lembrança inesquecida
Vá no pé da cruz erguida
Curvados rezem também
Um pai nosso pra quem
Deixou de sofrer na vida ..."
Dedico esta postagem aos filhos, netos e bisnetos de João, Antônio, Miguel e Raimundo Piancó (os quatro filhos homens do meu bisavô Serafim Piancó) e a Mercês, filha de Tito, pelo importante regate das memórias da Maniçobas.
2 comentários:
Linda esta postagem, sem comentários Beijinhos para todos
Que coisa linda,é tão bom rever a historia dos nossos antepassados to sem nenhum comentário
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